quinta-feira, 2 de junho de 2011

Release sexual de maio


Artigo publicado no jornal Gazeta do Oeste em 27.05.2011

O mês de maio foi recheado de eventos que envolvem a sexualidade. Primeiro, tivemos a lei que a prova a união estável homoafetiva. Segundo, comemoramos (?) o dia do combate à exploração e violência sexual contra crianças e adolescentes. Por ultimo, os jornais não deixam de divulgar as ininterruptas fagulhas soltas no congresso nacional sobre a cartilha contra homofobia.
Os temas estão em plena fervura nos comentários leigos. Mesmo com a nova lei, alguns cartórios ainda se recusam a atestar a união estável homoafetiva o que chega a ser ininteligível – Lei é lei, acabou-se! – num país que vibra a democracia, ou deveria ser a hipocrisia? Porque não mudamos de nome então nosso sistema político social?
            Nosso segundo tema é de causar horror – ou partir o coração! Todos os anos, na semana que reza o 18 de maio, órgãos públicos das diversas esferas políticas promovem campanhas e palestras sobre a temática do abuso e exploração sofridos por crianças e adolescentes e que ao que me parece, andam longe de acabar.
            Recebo – e surpreenda-se caso seja possível, com a frequência que me custa acreditar e chega a me doer – em consultório, crianças, adolescentes, mulheres, homens, que sofreram abuso na infância e em menor número na adolescência. Esses relatos, sempre cheios de dor e sofrimento, de medo, culpa e vergonha, causando, em sua maioria, transtornos muito sérios que se seguem até a vida adulta. Não sei se o mais doloroso é o relato ou o fato de que quando pergunto: O que ocorreu com o abusador? A resposta, invariavelmente é “NADA”.
            Nada sofreu, alguém que causou tanto mau, e que possivelmente multiplica suas ações como uma progressão geométrica. Pois aquele que foi abusado, pode (não em todos os casos) um dia vir a ser um abusador. A relação não é direta, ou seja, não podemos dizer que quem foi abusado vai ser um abusador, mas quando olhamos no histórico do abusador, este, em um número muito grande, já foi abusado também, na infância ou adolescência.
            Seria preciso ações mais enérgicas contra quem comete este tipo de crime. Mas enquanto isso, o excelentíssimo deputado Bolsonaro berra no congresso com a excelentíssima senadora Marinor Brito sobre os efeitos de uma simples cartilha nas escolas. Não que a causa não seja séria, evidente que é, e deve ser estudada, mas fazem tempestade num copo d’água porque a questão está explícita – uma cartilha tem a visão de todos –. Parece que o ditado “o que os olhos não vêem o coração não sente!” faz muito sentido nessa hora. Por que, de fato, ninguém vê quem são os abusadores, pois eles atuam calados e ficam impunes por aqueles que são violentados em sua dignidade. O algoz passa despercebido, enquanto o congresso crê na doce ilusão, de que uma cartilha pode “corromper” e não educar (já que é pra isso que se propõe).
            Precisamos de pessoas mais comprometidas com a causa humana e menos corrompidas por valores hediondos de recriminação e descriminação.
            Os representantes das igrejas, enfurecidos se a causa por aprovada, se esquecem que seus próprios seguidores, cristãos, estão a mercê da providência e do perdão divino, nada mais.
Keila Oliveira
Psicóloga
Terapeuta Sexual

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